Que lindo pavão!
Acreditaria se eu dissesse que aquela foi a primeira vez que
eu vi um pavão? Não me pergunte qual era a atração dos meus domingos de dez
anos de idade. Lembro-me das aulas de canto tidas numa pequena igreja local,
lembro de ter que assistir a partidas de futebol com o meu pai e irmão, eu
lembro de uma vez ou outra acompanhar a minha mãe às suas aulas de crochê,
lembro-me também da casa de duas primas legais que os meus pais costumavam me
levar. Ah! Eu gostava daquelas meninas,
observava um mundo tão delas e aceitava ainda confusa que eu não pertencia a
ele, era lindo vê-las construir roupas de bonecas, atribuir vozes e movimentos
a elas. Era lindo, mas não era meu, se era pra dar asas à imaginação, eu
preferia... Ter o controle da TV em mãos e, fingir ser aquele o meu microfone,
da imagem refletida no espelho a minha plateia, e cantava... Cantava.
É verdade, eu não me lembro de um zoológico, de me lambuzar
com um algodão doce, não me lembro de um pavão. Não quero dizer que a minha
infância foi ruim, não foi... Mas, um pavão, com todas aquelas penas coloridas
se abrindo, mudaria pra sempre a minha vida. (sem exageros)
Que lindo pavão! Que show de exibicionismo! Ele parecia
abrir-se para mim, assim, de propósito, como um artista que pede aplausos e
aclamações por seu talento. Você aprendeu a escrever, aprendeu a desenhar,
aquele aprendeu a dançar... O meu pavão, bem... Gritos irreverentes por ele ser
APENAS lindo.
– Lá vem ela... Agora. Que comece o show... “Ele
pensou”
EXTASIADA! PERPLEXA! ADMIRADA!
Cheguei a me importar com os demais que também o admiravam,
aquele era o meu pavão, o show era para mim. Adultos, jovens... Todos os
olhares fixados nele, senti ciúmes, e havia crianças... Ah! As crianças... Era
como o delas o meu olhar. QUE FANTÁSTICO!
Assim como eu, aquele monte de menino ao chegar em suas casa
lembrou do pavão, falou dele pra alguém, talvez não tenham escrito sobre ele,
mas o desenhou na aula de artes, posso imaginar o meu pavão em dezenas de
papeis... Colorido, aberto e até com um sorriso... Se exibindo. O modelo dos
desenhistas, a inspiração de um escritor.
Que lindo pavão! O meu pavão... Com olhos de criança eu o
percebi, com olhos de criança o admirei... Como uma criança.
sem duvida o pavão é uma das aves mas bonitas que já vi..
ResponderExcluirSem dúvida.
ResponderExcluirO pavão
ResponderExcluirEu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pensa do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matrizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! Minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rubem Braga