quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PEACOCK


Que lindo pavão!
Acreditaria se eu dissesse que aquela foi a primeira vez que eu vi um pavão? Não me pergunte qual era a atração dos meus domingos de dez anos de idade. Lembro-me das aulas de canto tidas numa pequena igreja local, lembro de ter que assistir a partidas de futebol com o meu pai e irmão, eu lembro de uma vez ou outra acompanhar a minha mãe às suas aulas de crochê, lembro-me também da casa de duas primas legais que os meus pais costumavam me levar.  Ah! Eu gostava daquelas meninas, observava um mundo tão delas e aceitava ainda confusa que eu não pertencia a ele, era lindo vê-las construir roupas de bonecas, atribuir vozes e movimentos a elas. Era lindo, mas não era meu, se era pra dar asas à imaginação, eu preferia... Ter o controle da TV em mãos e, fingir ser aquele o meu microfone, da imagem refletida no espelho a minha plateia, e cantava... Cantava.
É verdade, eu não me lembro de um zoológico, de me lambuzar com um algodão doce, não me lembro de um pavão. Não quero dizer que a minha infância foi ruim, não foi... Mas, um pavão, com todas aquelas penas coloridas se abrindo, mudaria pra sempre a minha vida. (sem exageros)
Que lindo pavão! Que show de exibicionismo! Ele parecia abrir-se para mim, assim, de propósito, como um artista que pede aplausos e aclamações por seu talento. Você aprendeu a escrever, aprendeu a desenhar, aquele aprendeu a dançar... O meu pavão, bem... Gritos irreverentes por ele ser APENAS lindo.
 – Lá vem ela... Agora. Que comece o show... “Ele pensou
EXTASIADA! PERPLEXA! ADMIRADA!
Cheguei a me importar com os demais que também o admiravam, aquele era o meu pavão, o show era para mim. Adultos, jovens... Todos os olhares fixados nele, senti ciúmes, e havia crianças... Ah! As crianças... Era como o delas o meu olhar. QUE FANTÁSTICO!
Assim como eu, aquele monte de menino ao chegar em suas casa lembrou do pavão, falou dele pra alguém, talvez não tenham escrito sobre ele, mas o desenhou na aula de artes, posso imaginar o meu pavão em dezenas de papeis... Colorido, aberto e até com um sorriso... Se exibindo. O modelo dos desenhistas, a inspiração de um escritor.
Que lindo pavão! O meu pavão... Com olhos de criança eu o percebi, com olhos de criança o admirei... Como uma criança.

3 comentários:

  1. sem duvida o pavão é uma das aves mas bonitas que já vi..

    ResponderExcluir
  2. O pavão

    Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pensa do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
    Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matrizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
    Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! Minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

    Rubem Braga

    ResponderExcluir